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          No curto espaço de tempo que designamos como a história da civilização humana, muitos dos grandes saltos civilizacionais, progressos e inovações foram consequências da necessidade humana de se reinventar, necessidade esta muitas vezes catalisada por crises e dificuldades. Fossem elas fome, guerra, crises económicas ou doença, o Homem e a civilização como um todo parecem prosperar sempre que os tempos são mais sombrios. Encontramos explicação para isto na Natureza, de que tantas vezes nos parecemos querer separar e elevar, mas à qual estamos imperativamente ligados. Darwin ensina-nos que nunca foi o animal mais forte, mais rápido ou maior que sobrevive, mas sim o que melhor se adapta ao seu meio. É aqui que reside o engenho dos Homens, que o usam para se adaptar aos mais diversos meios, tempos, épocas e diferentes contextos que enfrentámos e enfrentamos atualmente. O génio dos Homens parece traduzir-se pela sua capacidade de adaptação, que inúmeras vezes ocorre através da inovação.

          Não havendo a necessidade de recuar muito no tempo, viajemos até ao século passado e avancemos até aos dias de hoje. O século XX foi um século de progresso, tanto social como tecnológico, tendo havido uma inovação sem precedentes em toda a nossa história moderna. Encontramos várias razões para que isto tenha acontecido, sendo a maior delas a necessidade. Desde o crescimento populacional a inovações que tornavam as distâncias geográficas cada vez mais insignificantes, o século XX foi também um século com uma história atribulada, com eventos e crises de proporções mundiais, algo que jamais tinha acontecido. Comecemos no ano de 1914, nos últimos dias do mês de julho, quando começou a primeira guerra mundial. Durante quatro longos anos transformou a Europa, África, Ásia e até ilhas do Pacífico em campos de batalha, que levariam à morte, direta ou indiretamente, de cerca de 30 a 110 milhões de pessoas, desde o seu início até 1920. Neste momento tão negro da nossa história muitos foram os progressos e inovações alcançados, não só de instrumentos e armas de guerra, mas também invenções e inovações ainda hoje usadas, ou que levaram ao aparecimento de objetos e tecnologias que damos, hoje, como garantidos.

          Desenvolveu-se o controlo aéreo, incentivado pelo enorme número de aviões que nesta época assolavam os céus, 15 anos depois de terem sido inventados pelos irmãos Wright. Inventou-se o hidrofone, que mais tarde viria a dar origem ao sonar, um microfone que funcionava debaixo de água e que originalmente tinha sido imaginado aquando do desastre do Titanic. Desenvolveu-se a gabardine, não tanto por uma questão de estilo ou estética, mas por ser uma peça de roupa muito prática nas lamacentas e chuvosas trincheiras espalhadas pela Europa, e, entre tantas outras invenções e inovações, inventou-se a tecnologia que originou dois objetos que hoje encontramos em qualquer supermercado: os lenços kleenex e os pensos higiénicos.

          Uma década mais tarde veio a grande depressão que, em 1933, deixaria um quarto da população Mundial ativa no desemprego. Numa altura em que a fome enchia os lares e inundava as ruas de pessoas desesperadamente à procura de trabalho surgiram inovações que ainda hoje perduram: inventaram-se os tampões femininos, a receita de bolachas com pepitas de chocolate (as tão conhecidas chocolate chip cookies), criou-se a marca Motorola que, pela primeira vez, produzia telefonias para serem implementadas em carros e patenteou-se, pela primeira vez, as máquinas de barbear elétricas. Também desta crise do sistema financeiro viria a ser criado o jogo de tabuleiro mais conhecido em todo o mundo, o Monopólio.

          Com o recuperar das economias mundiais poucos anos passaram até que o mundo caísse, uma vez mais, numa guerra destrutiva e impiedosa – a segunda guerra mundial – que começara em 1939. Aqui, como esforços de guerra, desenvolveu-se o sonar – melhorando tecnologia inventada umas décadas antes – e que levou ao mapeamento do fundo do mar pela primeira vez, levando ao desenvolvimento e aprofundamento de conhecimento nunca antes conseguido. Desenvolveu-se o radar, ainda hoje usado em aeroportos ou nas máquinas de controlo de velocidade que a tantas multas dão origem. Inventou-se a borracha e o óleo sintético, que hoje encontramos nos carros quando passeamos na rua, os helicópteros que agora sobrevoam as grandes metrópoles em passeios turísticos e criou-se (ainda que levasse 20 anos a serem popularizadas) as primeiras máquinas de multibanco. Apareceu a televisão a cores, testaram-se e provaram-se os benefícios da descoberta feita por Flemming uns anos antes que levou à criação do primeiro antibiótico, a penicilina, e criaram-se os sprays aerossol, que pelos seus malefícios ambientais caíram em desuso nos tempos que correm.  Mas não foi só a tecnologia que foi desenvolvida e inovada: pela primeira vez viram-se mulheres a terem empregos, muitos deles trabalhos pesados em indústria, não só pela necessidade de mão de obra, mas também pela vontade de participar e ajudar, fenómeno que levou à emancipação das mulheres, um ponto importantíssimo de mudança na história moderna da sociedade.

          Com a guerra terminada e com o Mundo dividido em dois pelas superpotências emergentes da guerra, olhámos para os céus e para as estrelas e apressámo-nos a chegar lá. Em 67 anos passámos de voar a baixa altitude no primeiro avião motorizado a pisar a superfície lunar, tudo isto entre guerras, doenças, fome e crises económicas. O que eram televisões enormes a cores são hoje aparelhos altamente tecnológicos e finíssimos, presentes em todas as casas do mundo moderno. O que eram antes meios de comunicação excecionalmente avançados hoje são memórias de um passado recente, substituídas por um objeto que nos cabe no bolso e que em meros segundos nos põe-nos em contacto com qualquer pessoa que esteja do outro lado do planeta. O que antes era tecnologia de ponta exclusiva para uso militar ou de muitos poucos, hoje é banal e popular por tudo o Mundo.

          Pode então uma crise ser um catalisador para a inovação? Claro que sim, e os exemplos dados provam isso mesmo. Mas não acreditemos que a inovação é exclusiva em tempos de crise, porque não o é. Na verdade, é sabido que grandes empresas estão, muitas vezes, a par de inovações disruptivas, mas o seu contexto empresarial não as permite perseguir estas inovações, seja por não ser lucrativo numa fase inicial, seja por não quererem gastar recursos preciosos para competir no mercado. O valor dado por estas empresas já estabelecidas a este tipo de inovação, que é disruptiva do mercado, não é grande o suficiente para investirem nela, optando muitas vezes por investir em inovação sustentada através da melhoria dos seus produtos. Aqui surge o dilema do inovador: apostar em inovações disruptivas que a curto-prazo são mais difíceis de vingar e implementar no mercado mas que a longo-prazo se podem tornam em inovações importantes, ou investir em produtos já existentes, melhorando-os à medida que vão sendo testados e usados pelos seus utilizadores. Um bom exemplo é a multinacional gigante de aluguer de filmes Blockbuster, que incapaz de valorizar um então nicho de mercado no serviço de aluguer de vídeos ao domicilio, idealizado por uma start-up chamada Netflix, optou por não investir na empresa que mais tarde veio a popularizar o serviço de streaming, que hoje está presente em quase todas as casas do mundo moderno e que levou ao desaparecimento de todas as lojas físicas de aluguer de filmes.

          Talvez por tudo isto, nos dias de hoje, tantas inovações que tiveram origens em crises continuem presentes nas nossas vidas. Uma crise define-se como um evento disruptivo com implicações sociais, tecnológicas e económicas o que obriga a sociedade, como um todo, a pensar “fora-da-caixa”, a inovar de forma disruptiva, sem pensar de forma sustentada e limitada pelos parâmetros dos mercados. Mesmo hoje, no dia em que em que escrevo este texto, em que estamos todos confinados às nossas casas, em que vemos a sociedade a reagir a uma crise despoletada pelo Covid-19, vejo, todos os dias, negócios que se reinventam para dar resposta ao que está a acontecer, que adotam estratégias novas para se manterem relevantes e ativas nestes tempos de quarentena e que, possivelmente, não adotariam estas estratégias inovadoras caso o mercado, a sociedade, e a circunstância não tivessem sido afetados por esta crise de saúde com escala global. Como em todas as outras crises que precederam esta, tenho a certeza de que sairemos destes tempos difíceis mais fortes, e, acima de tudo, com um maior sentido de inovação.

          Mantenham-se seguros e pensem fora-da-caixa.